O legado de Dona Inair ganha destaque nacional: livro de Valdemir dos Santos, técnico da Cooperviva, é finalista do Prêmio da Biblioteca Nacional
Nesta semana, a equipe da Ancat bateu um papo com o professor e técnico da CooperViva, Valdemir dos Santos de Lima, 38 anos, da cidade de Rio Claro (SP).
Val, como é popularmente conhecido, atua no interior paulista como apoio técnico da CooperViva desde 2007, quando conheceu Dona Inair, presidente da cooperativa.
Neste ano, Val teve uma grata surpresa: seu livro, Inair – Catadora, Líder, Mulher, está concorrendo ao prêmio literário da Biblioteca Nacional.
Confira a seguir como foi a conversa com Val e a história de Dona Inair.
Ancat – Quando surgiu a ideia de contar a história de Dona Inair num livro?
Após o falecimento de dona Inair, presidente e fundadora da Cooperviva: Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Material Reaproveitável de Rio Claro (SP), decidi escrever um relato de memórias experienciadas ao longo dos anos junto ao empreendimento – um recorte no tempo e uma maneira de enfrentar o luto. A obra evidencia as lutas, as labutas, os anseios e as angústias das catadoras e dos catadores de materiais recicláveis no difícil processo de ressignificar os diferentes territórios espalhados pelo Brasil, por meio da coleta seletiva popular.
Ancat – Há quanto tempo você a conhece?
Iniciei minha trajetória junto à Cooperviva em 2007. À época, o empreendimento já era presidido pela Inair. Foram 16 anos aprendendo, ao lado da presidente, o trabalho desempenhado pelas catadoras e pelos catadores de materiais recicláveis. Ao longo desses anos, sempre mantive minha aproximação com a organização e nos desafios enfrentados pela cooperativa no município de Rio Claro.
Ancat – O que mais chamou atenção ao relatar essa história?
Acho que a inspiração para a escrita surgiu da vivência, ao longo desses 18 anos, junto à Cooperviva, sobretudo com dona Inair. Ela certamente materializa a história de muitas catadoras e catadores de materiais recicláveis espalhados pelo Brasil afora: um enredo, muitas das vezes, invisível. O direito à alfabetização, usurpado em decorrência da necessidade de trabalhar para manter a casa de seus pais e, posteriormente, sobreviver, não impossibilitou seu letramento social. Construiu caminhos, rompeu preconceitos, trouxe suavidade em meio à realidade enrijecida pela frenética busca do ter; não almejava bens materiais, apenas beleza e estética para a sua alma. Acredito que esse livro, uma primeira versão ainda, expõe uma temática ainda pouco conhecida pela sociedade brasileira. O intuito foi demonstrar essa dura realidade, sem romantizar esse caminho árduo, difícil, mas de empoderamento, resiliência e de resistência das mulheres; a maioria dos trabalhadores da catação são exatamente as mulheres.
Ancat – Você acredita que esse livro poderia inspirar novos relatos de catadores?
Trago à memória duas grandes obras já publicadas por demais companheiros e companheiras da catação dos materiais recicláveis, dentre elas “Quarto de Despejo”, da renomada escritora e catadora Carolina Maria de Jesus, e o livro “Recicladores de Sonhos”, uma narrativa que evidencia a história de dezenas de catadores de materiais recicláveis, dentre eles, Roberto Rocha, presidente da Ancat. Vejo que o protagonismo da categoria é robusto, as obras citadas demonstram isso, porém ainda precisamos trazer à reflexão essa realidade pouco conhecida pela maioria da população. As narrativas dessas obras, assim como do livro “Inair”, ainda são minimamente contempladas – nos capítulos destaco essa questão, sobretudo no capitulo 8, onde escrevo sobre a importância da educação à classe trabalhadora e sobre a necessidade de levarmos essa temática a todos os níveis de ensino. Em meio às limitações da vida, dona Inair não se ateve às frágeis habilidades básicas de leitura e escrita – verbalizava com sentimento a prática experienciada em meio à catação dos resíduos pós-consumo. Presenciei públicos atentos à sua fala: crianças, adolescentes, jovens e adultos. Em sua maioria, os sujeitos pertencentes aos espaços formativos nunca ouviram falar da Cooperviva, tampouco a narrativa de vida de uma catadora, líder e mulher — a formação do(a) aluno(a), em seus diferentes níveis, necessita considerar a realidade social e as lutas de classe: somente pela educação, e uma educação planetária e integral, conseguiremos avançar nessa pauta. Estimo que essas obras inspirem demais companheiros e companheiras a compartilharem seus saberes e suas histórias de vida.
Ancat – Qual a sensação de concorrer ao Prêmio da Biblioteca Nacional?
Ter a oportunidade de lançar essa obra, de modo independente e com todos os desafios existentes, e concorrer a um prêmio tão prestigiado, é uma satisfação enorme. Independentemente do resultado, dar visibilidade às lutas dos(as) catadores(as) de materiais recicláveis, sobretudo de dona Inair e da Cooperviva, por meio de uma narrativa que nos leva à reflexão sobre a importância da categoria ao cuidado de nossa casa comum, já é um motivo de comemoração. O legado de dona Inair será conhecido por todos(as)!
Ancat – Você tem novos projetos literários futuros?
Desde criança sempre admirei a escrita. Ainda não possuía dimensão do que poderia fazer para transformar esse gosto em algo que fosse palpável e, sobretudo, que tivesse significado; escrever é um ato de coragem e de resistência: por meio das palavras, tocamos a vida. Parafraseando o grande professor Paulo Freire, acredito que escrever é convidar o leitor a enxergar o mundo, suas mazelas e potencialidades, e (re)construí-lo com delicadeza, coragem e amor, por isso que escrever – e ler o mundo – é um ato político! – envolve participação. Pois bem, logo após a finalização do doutorado, juntamente com meu orientador, professor João Sergio Cordeiro, lançamos o Manual “ISO 14.001 para organizações de catadores(as)” (o material está disponível no site da Ancat) e, recentemente, o livro “Inair: catadora |líder |mulher”, inclusive, sua versão digital também pode ser acessada gratuitamente – o objetivo é difundir o legado dessa grande mulher. Voltando à pergunta: sim, tenho outro projeto literário: há um ano, aproximadamente, estou esboçando uma narrativa sobre educação e meio ambiente; um convite à reflexão dos desafios da sociedade contemporânea frente às crises socioambientais – causadas pela ação humana. Quem sabe, daqui um tempo, essa obra também esteja disponível. Enfim, como externado diversas vezes na obra “Inair”, penso que o objetivo da escrita seja trazer à tona e evidenciar não apenas a superfície das coisas ou daquilo que enxergamos, mas o âmago dessa existência, misturados às dores, aos anseios, aos sonhos e à vontade de viver das pessoas, sem desconsiderar a coexistência com tudo e todos ao nosso redor: uma utopia mínima necessária até por um mínimo senso humanitário.
Para leitura do livro na versão digital, basta acessar (gratuitamente) https://forms.gle/FYzdFZfv3BNxGWke8