Campo Grande/MS | Ancat e Unicatadores identificam desafios da reciclagem e articulam avanços para os Catadores no Mato Grosso do Sul
Mais de 110 Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis sustentam diariamente uma parte essencial da coleta seletiva de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Ainda assim, enfrentam uma realidade em que o valor recebido pelos materiais e a ausência de remuneração pelos serviços ambientais não acompanham a importância do trabalho realizado.
Este cenário esteve no centro da visita realizada na quarta, 9 de setembro de 2026, à Unidade de Tratamento de Resíduos (UTR) pelo Catador de Material Reciclável e Presidente da Ancat (Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis, Roberto Rocha, Luiz Henrique, presidente da Unicatadores (União Nacional dos Catadores) e Anderson Nassif, Catador de Material Reciclável e diretor de Logística Reversa da Ancat.

A equipe foi recebida pelo Catador Daniel Arguello Obelar, integrante da Unicatadores, do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis) e presidente da Rede de Cooperativas de Catadores de Mato Grosso do Sul. Juntos, conheceram a estrutura onde atuam os trabalhadores das organizações:
- ATMARAS/MS (Associação dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis dos Aterros Sanitários de Mato Grosso do Sul;
- COOPERMARAS/MS (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis nos Aterros de Mato Grosso do Sul);
- CataMS (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis do Bairro Dom Antônio Barbosa em Campo Grande/MS);
- Novo Horizonte (Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis Novo Horizonte).
A unidade recebe materiais provenientes da coleta seletiva municipal, que atende grande parte da cidade, e concentra as etapas de triagem, separação e preparação dos recicláveis para sua destinação.
COZINHA SOLIDÁRIA
Outro destaque encontrado na UTR foi a cozinha solidária construída pela própria Cooperativa, uma iniciativa que garante alimentação aos Catadores e Catadoras durante a jornada de trabalho. O espaço permite que as refeições sejam preparadas e servidas no próprio local, oferecendo mais estrutura, dignidade e cuidado a quem passa boa parte do dia dedicado à triagem e à recuperação dos materiais recicláveis.

MATERIAL CHEGA, MAS MERCADO NÃO RESPONDE
A visita também expôs obstáculos que comprometem a sustentabilidade econômica das organizações. Entre eles estão a necessidade de melhorias na estrutura da UTR, qualificação dos processos de trabalho, ampliação da qualidade dos materiais recuperados, fortalecimento da educação ambiental e, principalmente, a remuneração das Cooperativas pelos serviços prestados ao município. Atualmente, a Prefeitura disponibiliza o espaço, mas não efetua esse pagamento.
Outro ponto de atenção é a grande quantidade de embalagens com baixa ou nenhuma reciclabilidade e a dificuldade de comercialização de determinados materiais. No caso do papel-cartão, foram relatados valores entre R$ 0,10 e R$ 0,12 por quilo, insuficientes até mesmo para cobrir os custos da operação. O grupo também debateu os possíveis efeitos da entrada de papel-cartão importado a preços reduzidos no mercado brasileiro, fator que pode pressionar ainda mais a cadeia nacional e atingir diretamente a renda dos Catadores.

A passagem por Campo Grande integra uma estratégia de aproximação da Ancat e da Unicatadores com as diferentes realidades vividas pela categoria no País. Mais do que identificar problemas, a agenda abriu espaço para prospectar negociações, apoio técnico, novas parcerias e possibilidades de comercialização capazes de fortalecer as organizações de Mato Grosso do Sul.
“Conhecer a realidade de cada território é parte fundamental de uma estratégia maior, a de transformar trabalho ambiental em reconhecimento, renda e valorização efetiva para quem sustenta a reciclagem brasileira todos os dias”, pontua Roberto.


